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Como ser legal - Gabito Nunes

Como ser legalNa contramão do senso folclórico comum, os gays não veem a hora de se casarem. O que você acha disto? Eu também. O caso é que hoje em dia somos intimados a depor sobre isso e aquilo, escolher um lado sobre tudo. Porque, com o posicionamento militante da mídia geral e a ebulição da internet e sua pista opinativa livre, não omitir qualquer muxoxo é uma afronta – como se todos nós fôssemos do tipo assexuado que antes de dormir abraça o seu Jean Jacques Rousseau sobre o peito e medita quinze minutos sobre o Brasil.
Acho legítima a manifestação das minorias, entretanto, não formei opinião sobre o calvário homossexual. Porque ele em nada me afeta, ao contrário das crianças famintas da minha esquina. Mas não estou discriminando ninguém com essa falta de juízo, também não sei nada sobre a morte da Amy Winehouse, a “Liberdade” de Franzen, o novo comercial da Pepsi ou mulheres que usam estampas de oncinha. Sou pobre de opinião, tenho poucas, por esta razão as guardo junto de mim.
O importante é que, não interessa sobre o quê, as pessoas querem expressar suas crenças, não querem ficar de fora, não custa nada — é o open bar das ideias. Lá no fundo, as pessoas querem sublocar-se em algum grupo, posicionar-se em alguma alameda da trincheira, querem ser legais. Querem ventilar sua bondade ficando ao lado de quem não come vaca, auferir com sua personalidade se opondo aos que veneram os Beatles. Politicamente correto ou polêmico, o que vale é ser amado por suas predileções, o que importa é ser legal.
Há quem tenha opinião sobre isso de não ter opinião. O debate é essencial, sem ele não chegaremos a lugar nenhum, dizem. Com ele, chegaremos a lugar-comum — o embate —, eu digo. Porque azar dos argumentos, ninguém vai matutar a respeito do que você acha por mais de uma fração de segundo. Se você está com os comunistas, está contra mim. Se está a favor do comandante da Seleção Brasileira estou contra você. Se você carrega a bandeira da volta do penteado Pigmaleão, você está contra todos. E todos concordam que a agressividade é o linguajar padrão.
Até que um comentarista o chama de “débil mental” porque você acha Kosovo um território lindo e maravilhoso, e que o Rio de Janeiro, esse sim, não merece o título. Fuzil por fuzil, temos praia, calor e gente bonita. Eles paisagens balcânicas, cenários amados por Kurt Vonnegut e um povo unido. E finaliza a alegação apelidando seu opositor de “pulha” por desfazer-se da sua preferência, por fazê-lo duvidar da sua convicção íntima, por deixá-lo inseguro de que realmente você e Kosovo são legais. Então você precisa escoar sua irritação, não pode deixar seu estilo desaparecer no córrego.
Um crítico, seja literário, gastronômico ou jurado de concursos de beleza canina é, em tese, um conhecedor daquilo que põe defeito. Ele leu os livros, provou dos sabores, conhece o pedigree, ele tem uma opinião decisiva. Você também quer ser legal e criticar. Com o passaporte Twitter, encontra acesso aos alvos e voz retumbante. Você quer, pode, então você faz. Você é legal, tem personalidade, não é como aquela gente vazia, aqueles conservadores hidrófobos, omissos ambulantes. Aqueles que assistem tudo em 3D, de cima do muro, com visão privilegiada.
(Gabito Nunes)

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