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Versão Feminina

Você, você, você, você, você - Gabito Nunes

Você, você, você, vocêBom, resumindo é isso: você, você, você, você, você. Mas se você não me quisesse de verdade, já teria me falado alguma coisa. Mas como a gente mal troca uns resmungos e cumprimentos formais, a hipótese fica aberta. Sabe, estou sempre sentado estrategicamente a 30° de inclinação do eixo do meu mundo, que ultimamente, não sei a causa, tem sido você.

Daqui da janela faço as contas sobre quantas vezes você refaz a trança nos seus intermináveis cabelos cor-de-sol. Observo daqui cada vez que a alça delicada das suas blusas descobrem a pele branquinha e sardenta do ombro, o mesmo ombro que você faz questão de manter sempre erguido, pra no caso de uma borboleta resolver pousar, quem sabe.

Quando você fica muito tempo sem olhar para os lados, me distraio olhando um pouco o movimento da rua, tentando mudar a paisagem a fim de evitar ter um treco e morrer de overdose no meio da sala de aula. Vez que outra, me ponho no meu lugar, e daqui mesmo sussurro toda minha paixão esfuziante por você, pequena.

E acabo achando graça em constatar que isso começou quando notei que você era a última pessoa que ainda come aqueles salgadinhos integrais de queijo em todo o campus. Você tem um jeitinho de falar bonito que fica ainda mais bonito porque não o desperdiça debatendo por que os homens são tão ruins em se comprometer. Você quer saber de outras coisas, como aqueles livros que ninguém mais tem coragem de remover o pó, na biblioteca - aliás, estou juntando forças pra perguntar, hora dessas: "Os Sofrimentos do Jovem Werther" é realmente bom?

Eu sei que você vai a festas também. Mesmo sonhando, é bem complicado conhecer alguém em páginas de literatura. Mas ultimamente as festas tem sido tão ruins que a parte mais badalada é quando, no seu quarto, você forma um arco-íris de vestidos em cima da cama. E testa cada um frontalmente, dependurando o cabide sobrepondo o sutiã de algodão, sempre sem enchimentos artificiais, com muito orgulho.

E para um pouco em frente ao espelho de corpo inteiro, com as pernas tortinhas e os pés bem juntos, modelando tudo. Mas não pergunta coisas como se existe alguém mais bela, você já sabe que sim. Fica li, desafiando você mesma, querendo saber o que, afinal de contas você quer. Não pra essa noite, mas pro resto da vida. Mas é só uma suposição, nunca estive lá, só gosto de imaginar assim.

Às vezes, você tem uma coisa, sei lá, de achar que está com falta de ar. E obriga o colega próximo a medir seus pulsos todo assustado. É que ninguém mais sabe que seu corpo exige atenção especial - até que é engraçado. Sabe, não sei tudo que você quer, mas sei que você pede quieta para, pelo menos uma vez, que um rapaz faça sexo contigo totalmente apaixonado. Que eu vou trabalhar duro pra ser esse rapaz, disso eu sei.

Por esta razão fico à espreita, te esperando descruzar os braços. Isso, vai, anda com os ombros sempre bem erguidos. Faz a borboleta ter vontade de pousar. E você nem desconfia que agora mesmo existe alguém de olho em coisas que nem você sabe. Alguém que sonha um dia te contar sobre seus próprios segredos - esses capazes de deixar qualquer um com toda vontade de pousar no seu ombro. E te adorar com todos os dentes.

(Gabito Nunes)

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