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Acima de tudo - Ricardo Gondim

Acima de tudoAcima de tudo, há o esforço de amar, mesmo reconhecendo que o amor não é ideal; o ânimo de ser bom, mesmo reconhecendo que a bondade não é ideal; o empenho de escrever, mesmo reconhecendo que o texto não é ideal. Acima de tudo, há o dever de se expor na arena, onde holofotes magnificam os superlativos; o atrevimento de desnudar-se nos palcos, mesmo quando se exigem onipotências; a coragem de enfrentar expectativas irreais; o arrojo de relacionar-se com quem nunca espera ser frustrado, magoado ou entristecido.

Acima de tudo, há a recusa de ter que liderar como Moisés; inspirar como Davi, denunciar a injustiça como Isaías, assumir um estilo de vida simples como João Batista, ou partir para a vanguarda como Paulo. Na aceitação dos próprios limites, não é preciso superar Victor Hugo, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, ser mais genial que Leonardo da Vinci ou mais caprichoso que Michelangelo. Resta apenas o imperativo de fazer o possível, sem demandas exteriores.

Acima de tudo, há a consciência de que o melhor não precisa se confundir com o ideal. Se os arrazoamentos espirituais não se moldam à ortodoxia, basta a sincera busca por sentido. Se expectativas falham, - “eu esperava mais de você” -, basta que não haja intencionalidade. Tropeçar em cadarços não é errado, desde que seja sem querer.

Acima de tudo, há a desobrigação de cumprir roteiros alheios; de desfilar como cavalo de leilão; de preencher a ficha do Hall da Fama; de querer virar verbete no dicionário do Establishment.

Acima de tudo, há a sagrada resolução de saber-se íntegro na alma, de ser honesto com a consciência. E isso bastará para não perder a vida.


(Ricardo Gondim)

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