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A gaveta – Adriana Falcão

A gavetaEm alguma região do cérebro humano, numa gaveta meio emperrada, deve estar guardado tudo aquilo que pensamos que não lembramos mais, ou, explicando melhor, as lembranças que demos por esquecidas.
Vez por outra elas escapam lá de dentro, trazendo consigo alguma sensação inesperada, um cheiro, uma música, uma imagem lavada pelo tempo, ou, no mínimo, a triste constatação da velhice que chega.

Enquanto as memórias úteis (nome, endereço, telefone, RG, CPF, “preciso levar a chave”, três vezes quatro: doze, “sexta tenho dentista”, dáblio, dáblio, dáblio ponto alguma coisa, etc.) passeiam com livre trânsito pelas dobrinhas do encéfalo, estas outras permanecem engavetadas, penso eu, por um motivo óbvio. Se todas as informações de uma vida inteira pudessem circular livremente pelo nosso consciente, com certeza enlouqueceríamos.
Talvez algumas dessas lembranças ocultas, por vaidade ou claustrofobia, tentem escapar da gaveta a todo custo.
Outras, quem sabe, preferem a reclusão e detestam quando são desencavadas por algum motivo.

Pode ser que, escondidas ali no seu universo, elas interajam em estranhas relações do tipo – um velho professor de geografia brincando com um coelhinho de pelúcia.
Ou pode ser ainda que estejam em estado de hibernação, alheias ao fato de que podem ser invocadas a qualquer momento.
Seja lá qual for o regime que impera nesse mundo desconhecido, é possível que uma antiga vizinha de aparelho nos dentes se surpreenda ao se deparar repentinamente fora da gaveta, arrancada por uma conversa banal: “sabe quem eu encontrei no banco? A Vaninha do 102. Casou, separou e tem três filhos.”
Com o advento dos programas de relacionamento da Internet, muita gente tem sido desengavetada com uma simples mensagem de texto: “lembra de mim? Eu sentava ao seu lado na sétima série.” Essas mensagens às vezes vêm acompanhadas de uma foto de alguém vagamente parecido com aquele seu colega de classe, que se transforma no próprio tirando-se alguns anos e alguns quilos.

Mesmo quando não são atraídos por um estímulo exterior ao nosso pensamento, acontece com freqüência de pessoas, objetos e fatos, supostamente esquecidos, surgirem de repente: “ah, como eu gostava daquele leãozinho dourado da medalha do vovô!” É comum que isso seja gerado por uma associação de idéias. Sinal verde – verde – ecologia – mico leão dourado.
Como também ocorre do esquecimento aparecer assim, do nada, “meu lápis de bandeirinhas mordido na ponta!”, tenho minhas suspeitas de que a gaveta pode estar semi-aberta, ou até mesmo furada.

A questão de maior relevância desta tese, para mim, consiste na seguinte dúvida: será que as coisas esquecidas vivem tramando suas fugas, ou as coitadas escapolem apenas por causa de nossa atividade cerebral e, fora da gaveta, se sentem desprotegidas?
A segunda questão mais importante é: quem é mais poderosa, a ciência ou a fantasia?
A fantasia.

Por isso sempre temo pelo destino das lembranças que cismam em percorrer minha mente, não sei o que fazer com elas, e torço para que se acomodem onde se sentirem mais felizes.
Não.
Não me venham com palavras difíceis como hipotálamo, córtex central, núcleo talâmico, ou lobo parietal.
Eu aposto que está tudo lá dentro da gaveta.

(Adriana Falcão)

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