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Versão Feminina

O amor é uma pena – Gabito Nunes

O amor é uma pena O amor é uma pena. Sempre que você encontra com uma, no meio da rua, flutuando leve na altura dos olhos, ao alcance dos dedos, brota uma irrevogável sensação de encantamento, um envolvimento juvenil. Porque parece sorte. Estar ali diante da pena que te escolheu e não milhares de outros. Ela plana, branca ou multicolorida, a favor da vontade e humor do vento, que leva e traz. Sem deixar que a gente perceba, vai caindo lentamente, indo ao chão com rodeios, uma experiência plástica, virtuosa, apaixonante.

Seu peso é imperceptível perto da leveza que supõe. Aos poucos vai se atirando ao destino de ser pisoteada por alguém com pressa de chegar a lugar qualquer. O plano é natural e sempre o mesmo, migrar para onde houver verão. Porque fazer voar e aquecer são suas funções biológicas, seu compromisso vital. Ninguém sabe o que faz uma pena se perder do seu caminho, talvez a vontade de trocar de futuro, de estação, de paisagem. Ninguém pensa muito nisso, é uma pena. Só uma pena.
Voando sempre de acordo com a mesma rajada de vento, a mesma latitude, o mesmo bando, a paixão cansa e a ânsia de voar junto se esvai. E quando essa paixão acaba, o que era ritual vira rotina. Vai ver a pena também necessita de uns ventos súbitos. E se liberta da asa direita. Agora, a pena vaga livre, solta e disponível por aí. O que um dia foi parte integrante do todo, pertencente a um belo e raro pássaro, depois não passa de matéria em decomposição em alguma praça pública da metrópole. O amor é uma pena.

( Gabito Nunes )

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