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Diário de um solteiro – Gabito Nunes

Diário de um solteiro O astral pós-coito é de checar se você não comeu o Dr. House. Sabe aquelas que só fazem sexo se o psicólogo viaja?

A vida de solteiro é uma afamada aventura. Não casem crianças, sob pena de viverem feito cão de madame, esgoelados naquelas coleiras de bronze com endereço de entrega, caso apanhado em vadiação. Esse era meu discurso de vingança há um tempo atrás, antes de cair na rotina de não ter rotina.

Noite dessas, passei a noite num boteco me achando a ressurreição do Nelson Gonçalves, tragando fumaça,  loiras intragáveis e ideologias de rua - cinema, marxismo, cafajestagem, Vonnegut, crime organizado e outras merdas que sinceramente nem ligo, sempre tantando pertencer a um grupo do sistema solar.

Chego em casa aturdido, me sentindo diferente igual a todo mundo, cantarolando um samba-canção que algum boêmio corno batizou com o nome da vagabunda, sei lá que altura da matina. Me dou conta ao ligar a tevê com uma fatia de torta de sorvete no colo: a solteirice é deveras uma peripécia. Passava uma sub-produção de ação com o Steven Seagal desarmando imbecis de costas, à queima roupa, num falsificado salto mortal.

Ser livre é isso, uma aventura tosca, onde você enfrenta perigos, o desconhecido, o inusitado, maquiando suas falhas, pois nunca é violentado a pôr-las pra fora. Elementar, você nunca chega perto demais. Lá onde ninguém é normal, sociável, cheiroso, tolerante ou civilizado.

Somos todos mini-stevens-seagals desferindo golpes de Aikido no que realmente importa, cada qual com seu rabicó de estimação. Infalíveis, boçais, chatos, brutos, rasos e repetitivos todos os dias, exceto aos domingos, quando nos ordenamos a enconder-se do Faustão onde haja luz e serotonina, normalmente em parques cheios de casais bacanas caminhando lado a lado, com objetivos, regras e causas.

Ah, mas ser solteiro é deixar a vida surpreender! Que papo bonitinho. Pra um poema da Cecília Meireles, do tempo que éramos sumariamente reprimidos. Agora estamos estravasando, tirando o atraso, respirando sexo, cavocando intenções já no aperto de mão, sempre atrás de uma galinha pra chocar os ovos.

E se você finalmente consegue uma trepada, aí sim vem a surpresa: um terceiro mamilo nas costas, o bronze da pele indo pelo ralo, gemidos alusivos a algum trash de corujão e um astral pós-coito de checar se você não comeu o Dr. House. Sabe aquelas que só fazem sexo se o psicólogo viaja pra Fernando de Noronha?

Adulterados, disfarçados, fantasiados e perfumados com colônia de free shop pra ninguém perceber o cheiro amanhecido do nosso individualismo patológico fritando em óleo saturado de tantos jogos mortais, Schopenhauer e leva-e-trás. Se for pra alimentar razões pra ser feliz, antes me apresente alguém feliz com qualquer razão.

( Gabito Nunes )

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