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Sujeira interna - Gabriel Chalita

sujeira interna É isso, amigo, é preciso ser exigente com as nossas imperfeições e com o nosso comodismo. Não podemos ficar deitados em busca de escravos dos nossos desejos e apetites. Urge que vençamos o domínio fácil daqueles que nos servem e usam de nós como peça de decoração. Não estamos aqui para decorar ou embelezar o museu alheio. Estamos aqui para exauris as nossas forças na decisão consciente de não ter medo dos monstros que habitam os nossos próprios museus. São nossos.
Criados por nós mesmos ou por outros. Mas são nossos. São os traumas que carregamos. As decepções. As tristezas. Os fracassos. As mesquinharias. Tudo nosso.

E não há como escondê-los embaixo de um tapete enfeitado que agrade o nosso visitante. O tapete há de rasgar a qualquer momento, e há de revelar o que não limpamos simplesmente por medo de ficarmos a sós conosco mesmos. Evidentemente, não há só sujeira. O nosso museu interior nos revela imagens preciosas do quanto servimos ao outro, do quanto amamos, do quanto nos emocionamos com cenas delicadas da vida que emprestaram poesia ao nosso sonho e que acalentaram o nosso convívio. É o que somos: perfeição e imperfeição, dualidade. E a vida madura talvez seja a incansável busca em fazer com que as virtudes vençam os vícios e que o museu esteja, enfim, digno de ser visitado. Nada de enfeites, nem disfarce. Limpeza. A sós conosco mesmos, somos capazes de nos limparmos para que o dor desagradável não desagrade nem a nós nem aos outros.

Ninguém gosta de ser usado, amigo. E ninguém de fato gosta de ter usado alguém. É isso mesmo, ninguém usa o outro impunemente e quem nos pune é a nossa própria consciência. Lá dentro, sabemos que são as trocas, as mãos dadas, a alteridade que nos conferem dignidade...
É esse o convite que lhe faço e me faço. Vencer o medo de estar a sós com os nossos retalhos da nossa tessitura, com os cacos de nossas desconstruções. Sozinhos, mas não sozinhos, por que o amor vive em nós e haveremos de rearrumar a casa e abrir os salões do acolhimento para que sejamos visitados, freqüentados.
É o paradoxo da vida mais uma vez nos surpreendendo. Precisamos da presença do outro a da sua ausência. Precisamos dos sons que habitam o cosmo e do silêncio. Sozinhos e silenciosos estaremos aptos para aplaudir, acompanhados, a nova sinfonia.
( Gabriel Chalita )

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