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A cinefilia era quase um vício sexual – Arnaldo Jabor

cinefilia

 

  Agora, filmando de novo depois de 18 anos, a magia do cinema me voltou. Não falo do moderno e frenético show de cortes sem fim, de efeitos especiais em filmes sem roteiro, em manifestos de sangue e porrada. Tenho lembrado muito da utopia fílmica dos anos 50 e 60, alimentada pelos "Cahiers du Cinema" e pelos círculos de fumaça dos cigarros "Gitanes" sem filtro.
O cinema era nossa grande esperança dentro da indústria cultural que ganhava o mundo. Achávamos que a arte poderia ser salva dentro da fábrica de biscoitos baratos que começava. Éramos religiosos da imagem.
Tenho saudades da sala escura que tanto amávamos: do cinema-segredo, o cinema como punheta dos rapazes feios (o grande crítico Paulo Emílio escrevera: "Ia-se ao cinema como ao bordel - em busca de ilusão"). Saudades desse mundo preto-e-branco...
Ahhh... como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano, e o novo Antonioni, e o novo Godard...
Atualmente, a cinefilia soa quase como um vício sexual. Talvez tenha sido. Há um mundo secreto, próprio do cinema, que só alguns ainda conhecem. Hoje o cinema é nu. Está exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais em forma de vídeo, está nos hotéis, está rodando bolsinha nas ruas. Cinema perdeu muito a "aura" culta. Além disso, o ritmo incessante que o clipe e a fome de mercado trouxeram nos privaram da contemplação reflexiva das imagens.

"No grande cinema não há lugar para alusão do sentido. Não há símbolos, há ícones. Não há ideal a atingir; há um ensinamento da nossa finitude. No verdadeiro cinema, meu companheiro, uma coisa não se soma à outra para formar uma terceira. Não há todo; só partes".

(Arnaldo Jabor)

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