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Textos e contextos!
Versão Feminina

Entrevista solta a Carlos Drummond de Andrade


Qual a mais bela palavra da língua portuguesa?
- Hoje é glicínia. Apesar de leguminosa.
- E amanhã?
- Cada dia escolho uma, conforme o tempo.
- A mais feia?
- Não digo. Podem escutar.
- Acredita em Deus?
- Ele é que não acredita em mim.
- E em Saldanha?
- O cisne ou o outro?
- O outro.
- Até Deus acredita nele.
- Então papamos a taça?
- Na raça.
- E se não paparmos?
- Eu não sou daqui, sou de Niterói.
- Mas tudo é Brasil.
- Para o Imposto de Renda, sim. Para o Imposto de Serviço, são muitos.
- Já fez a declaração?
- Quem faz por mim é um computador de terceira geração.
- Tão complicado assim?
- Ao contrário: a mais simples.
- Parabéns por ter renda.
- Mas eu não tenho. Imagine se tivesse.
- E a Apolo-9?
- O maravilhoso ficou barato. Quero ver aqueles três é guiando fusca no Rio.
- Vai melhorar. Olhe os viadutos.
- Estou olhando. Não vejo é pedestre. Já será efeito da pílula?
- O Papa é contra.
- O Papa nem sempre é Papa.
- Acha que China e U.R.S.S. irão à guerra?
- Não. A guerra é sempre feita entre um que quer e outro que não quer brigar.

Quando os dois querem, verificam que estão de acordo, e detestam-se em paz.
- E a crise do teatro?
- Cada um leia a peça em casa.
- Os atores ficarão sem trabalho?
- Escreverão peças para leitura em casa.
- Os teatros estão fechando.
- Mas as cervejarias estão abrindo.
- E o Festival do Filme?
- Genial. Vai mostrar aquilo que não se vê mais nos cinemas: filmes.
- Esquadrão da Morte?
- Calma. Se é para liquidar com os bandidos, acabará fuzilando a si mesmo.
- É pela eleição por distrito?
- Sou radical. Por bairro."

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